Resenhas

Pigmaleão: O poder da educação e do feminismo

* Esta é uma análise do livro, portanto, pode conter spoilers

O Pigmaleão pode parecer uma história clichê de início, mas é uma daquelas obras que trazem muitas camadas e críticas sociais, sejam essas de classe ou gênero.

Essa história foi inspirada na mitologia grega. O mito conta a história do escultor Pigmaleão que vivia em Cipro, uma ilha no Mediterrâneo. Por colocar defeitos em todas as mulheres, ele decidiu ficar solteiro, já que nenhuma esposa atenderia as suas expectativas.

No entanto, após esculpir a estátua de Galatéia, uma linda mulher feita de Marfim, ele acaba se apaixonando pela sua obra-prima. Apesar de ter esculpido a mulher dos seus sonhos, ele lamentava o fato dela ser fria e sem vida. Devido os lamentos do irremediável apaixonado, Afrodite, a deusa do amor, decidiu dar uma alma a estátua e, por fim, eles acabaram se casando.

Baseado nisso, Bernard Shaw cria a peça em 1913 e traz como protagonistas um professor de fonética ranzinza, Higgins, e uma doce e pobre florista, Eliza Doolittle.

Em uma noite chuvosa após uma ópera em Covent Garden, ocorre o encontro dos protagonistas. Após notar os modos grosseiros de Eliza enquanto ela vende suas flores nas sujas ruas de Londres, Higgins aposta com seu amigo, o Coronel Pickering, que também é fonecista, que conseguiria transformar Eliza em uma dama da sociedade em seis meses através do aprendizado da própria língua, o inglês. No fim do processo, ela seria levada ao Palácio de Buckingham para uma noite de gala.

Apesar de estar hesitante com a proposta, Eliza topa participar porque essa seria a sua chance de ter acesso a uma educação melhor, e assim, ela poderia se tornar uma pessoa mais respeitável.

Apesar do difícil gênio do professor e o jeito como era maltratada, ela acaba criando sentimentos por ele. Quando a transformação chega ao fim, Eliza se decepciona ao ver que era enxergada apenas como um modo de vencer uma aposta. Ela se sentiu vazia, se questionou o que havia se tornado e a qual preço. Com tamanha decepção, ela foge de casa.

Apesar do seu jeito misógino, é nessa situação que Higgins enxerga o quanto ela era importante na sua vida. Ele sai de casa desesperado e vai pedir conselhos para sua mãe, outra figura feminista forte na história. Para sua surpresa, encontra Eliza no local. Ela está imponente e não transparece ser mais aquela figura frágil do início da história. Ela acabou se tornando uma mulher independente e não se sujeitou mais as condições impostas pelo professor.

Na sua conversa com ele, Eliza chega a sua realização e com uma das frases mais tocantes do livro: A diferença entre uma dama e uma florista não é o modo como ela se comporta, mas como ela é tratada. Esse conceito pode ser aplicado na nossa sociedade atual, pois muitas vezes a sociedade rotula as mulheres de acordo com um padrão, quando na verdade, a mulher tem a liberdade de fazer o que quiser com a sua vida.

Na outra ponta, o professor conclui que sua vida não seria mais a mesma sem ter Eliza ao seu lado. Como o próprio diz, ele sentiu falta da Eliza por completo: Ele não sabia mais acordar sem ouvir o seu bom dia, suas risadas, sem seus altos e baixos e daí por diante.

O final da obra é aberto. Não se sabe se os dois passam o resto da vida juntos, ou se eles brigam novamente e nunca mais voltam a se ver. Não há como saber se o machismo na história foi vencido por completo, mas acredito que o ponto chave é mostrar que a transformação do seu humano é algo constante e que se acreditarmos, ele pode ser melhor.

Escute a playlist do musical My Fair Lady (1964), que foi baseado na peça Pigmaleão. O filme, estrelado por Audrey Hepburn e Rex Harrison, teve a trilha sonora composta por Alan Jay Lerner e Frederick Loewe.



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